A Tua Aprendizagem Pertence-te
Durante longos períodos da minha vida no ténis, as aulas mantiveram-se quase exatamente iguais.
Passávamos normalmente cerca de trinta minutos a bater bolas lançadas de um cesto, talvez quinze minutos a fazer um determinado exercício sem oposição e o resto da sessão a jogar pontos, quase sempre sem serviço.
Houve alturas em que ia ao campo sobretudo para bater na bola com força, fazer exercício e sair cansado. Não há nada de errado nisso. O ténis pode valer a pena simplesmente porque sabe bem mexermo-nos, competir e partilhar um campo.
Mas o meu ténis também estagnou. Os mesmos jogadores ganhavam-me das mesmas maneiras e eu não compreendia muito melhor porquê.
Noutras alturas, a aula em si não tinha mudado, mas a minha relação com ela tinha. Chegava com algo que tentava compreender. Usava os exercícios para explorar possibilidades e tratava os jogos como experiências. Por vezes perdia enquanto as fazia, mas muitas dessas derrotas continham o início de vitórias que antes não estavam ao meu alcance.
O treinador era o mesmo. O grupo era o mesmo. A diferença era eu ter começado a participar na minha própria aprendizagem.
O que mudou quando nada mudou?
Durante muito tempo, achei que a aprendizagem pertencia sobretudo à pessoa que orientava a sessão. O treinador escolhia o exercício, identificava o erro e dava a correção. O meu papel era ouvir e tentar reproduzi-la.
Esta organização é compreensível. Um treinador tem conhecimento e vê coisas que o jogador não consegue ver. Quando o tempo de campo é limitado, seguir a sessão também pode ser a opção mais prática.
A dificuldade surge quando o jogador quase desaparece do processo. Faz-se um exercício, segue-se uma instrução e passa mais uma semana, enquanto as perguntas que nascem no jogo do próprio jogador ficam algures fora da aula.
Não passei de repente a controlar tudo. Continuava dependente do treinador, do grupo, do campo disponível e da vontade dos outros jogadores para explorarem comigo. Tive a sorte de o meu treinador me dar muitas vezes espaço quando eu o pedia. Outro ambiente poderia ter respondido de maneira diferente.
O que mudou foi mais pequeno: deixei de tratar a minha experiência como secundária.
Se algo funcionava num exercício mas desaparecia num jogo, isso importava. Se uma correção não fazia sentido para mim, isso também importava. Se queria descobrir o que acontecia quando usava mais slice, mudava o serviço ou jogava com outra intenção, a pergunta não se tornava irrelevante só porque não fazia parte do plano da aula.
Responsabilidade e capacidade de agir não são a mesma coisa
Se um treinador cria um ambiente de aprendizagem fraco, a responsabilidade por esse ambiente pertence ao treinador. Um jogador que já paga uma aula, encaixa o ténis entre o trabalho e a família e tenta melhorar não deve ter de compensar um treino fraco e depois ser culpado por progredir pouco.
Esta série não tenta suavizar essa responsabilidade. Parte de outro lugar: ter razão sobre de quem era a responsabilidade não me ajudava, por si só, a aprender.
Eu não podia simplesmente escolher outro ambiente. Tinha o treinador, o grupo e o tempo de campo que estavam disponíveis. Se esperasse que o ambiente se tornasse ideal, a minha aprendizagem continuaria dependente de uma mudança que eu não controlava.
Por isso, a pergunta que começou a importar não era “como assumo a responsabilidade pelo trabalho do treinador?”. Era “o que continua a pertencer-me dentro deste ambiente?”
O ambiente pode não ser culpa tua. A tua aprendizagem pode continuar a pertencer-te.
Eu não conseguia tornar um exercício fechado representativo apenas com atitude. Podia reparar naquilo que ele deixava de fora. Podia trazer uma pergunta dos meus jogos, explorar uma intenção dentro da atividade, testar uma ideia quando começavam os pontos e decidir se o conselho fazia sentido no meu jogo. Nada disto transformava uma hora fraca numa hora excelente. Significava que os limites daquela hora não decidiam tudo o que eu conseguia aprender.
Para mim, ser dono da aprendizagem passou a ter menos que ver com aceitar responsabilidade e mais com recusar a impotência.
Também não significa que cada hora tenha de se tornar um projeto sério. Há dias em que continuo a querer bater bolas e gostar de ficar cansado. A diferença é isso poder ser uma escolha, em vez de ser a única relação que sei ter com o treino.
Uma série sobre participação
Esta série nasce dos momentos em que comecei a ver a minha aprendizagem de outra forma: questionar o significado de ser treinável, pedir para levar um exercício, deixar de ouvir instruções que se tinham tornado ruído, usar jogos como experiências, procurar o que existia antes de um erro e perguntar se algo que parecia melhor no treino tinha sobrevivido ao jogo.
Não são instruções para te tornares no aprendiz perfeito. Algumas das minhas escolhas podem ter sido úteis; outras podem ter sido apenas teimosia. O espaço que o meu treinador me deu ajudou, mas a descoberta maior foi que eu continuava a ter um papel mesmo quando a estrutura à minha volta não mudava.
O que liga estas histórias é uma ideia mais discreta:
Um jogador pode receber ajuda sem entregar a autoria da sua aprendizagem.
Talvez seja essa a primeira pergunta que esta série deixa em aberto. No ambiente de ténis que já tens, onde te sentes presente na aprendizagem e onde sentes que ela acontece à tua volta?
Pode não haver uma solução imediata. Reparar na diferença foi onde o meu próprio percurso começou.